O Jogo da Imitação, Transtorno do Espectro Autista (TEA) e “Teoria da Mente”

O Jogo da Imitação (The Imitation Game) é uma cinebiografia que conta a história de Alan Mathison Turin (1912-1954), brilhantemente interpretado por Benedict Cumberbatch.




Poster Divulgação: Wikipedia


Turin nasceu na cidade de Paddington, Inglaterra, Formou-se em Matemática com honras pela Universidade de Cambridge e se tornou cientista da computação, criptoanalista e o criador da “Máquina de Turing” – protótipo do computador moderno -, tendo sido considerado pioneiro da computação e pai da ciência computacional e da inteligência artificial.

Trabalhou para a inteligência britânica durante a Segunda Guerra Mundial, em um projeto secreto que visava traduzir informações nazistas de guerra encriptadas que eram trocadas diariamente entre os alemães por sinais de rádio. Estes sinais eram facilmente interceptados, mas a grande questão era decifrar as mensagens nele contidas em tempo hábil para criar estratégias de contra-ataque.

Como se não bastasse ter criado a máquina capaz de tal proeza, ainda teve o insight de que nem todas as ações militares germânicas surpresas poderiam ser direta e prontamente combatidas, pois geraria desconfiança nos alemães, fazendo com que mudassem o padrão de codificação. Foi necessário mais uma vez o brilhantismo matemático, estatístico e probabilístico de Turing para orientar o serviço de inteligência a intervir apenas em batalhas estratégicas para ganhar a guerra em favor dos aliados.

Informações históricas sugerem que a equipe de Turing e o serviço secreto britânico foram fundamentais para a ação de desembarque na Normandia, no famoso Dia D, que levou a uma vitória importante da frente aliada.

Mas o que O Jogo da Imitação pode nos ensinar sobre psiquiatria? O que Alan Turing tinha de diferente e peculiar?

Tudo leva a crer que este gênio pouco compreendido tinha Transtorno do Espectro Autista (TEA). O diagnóstico de TEA é constituído por dois pilares de sinais e sintomas: A – Déficits persistentes na comunicação e interação social em múltiplos contextos; B – Padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesse ou atividades. Os sintomas devem estar presentes precocemente no período do desenvolvimento, devem causar prejuízo clinicamente significativo no funcionamento em alguma área importante da vida do indivíduo e não devem ser mais bem explicados por deficiência intelectual ou atraso global do desenvolvimento.

Com a importante ressalva de que o objetivo deste texto não é padronizar, sistematizar ou resumir a clínica psiquiátrica a uma avaliação com base em um filme, mas sim proporcionar uma imersão no cinema e nos conhecimentos teóricos que dispomos no campo da psiquiatria, vamos aos fatos...

Desde a idade escolar, Alan Turing apresentava dificuldades evidentes de fazer amigos e ser aceito, tendo sofrido bullying pela estranheza que causava nos demais colegas de classe. Em diversas cenas, é notável sua habilidade limitada para expressar seus sentimentos e até para compreender ironias, piadas e brincadeiras.

Turing chega a comparar a criptografia à comunicação humana, sugerindo que as pessoas não dizem exatamente (ipsis litteris) o que elas querem transmitir. Para pessoas como Turing, a comunicação é fria, clara, objetiva e ao “pé da letra”, pois há um déficit importante da capacidade de abstração, de entender o que está implícito na comunicação, nas “entrelinhas”, no “ar”.

Seu "estilo" cognitivo não permitia deduzir o estado mental dos outros à sua volta, sendo, portanto, incapaz de fazer atribuições sobre a motivação ou as intenções dos demais e comprometendo o desenvolvimento de sua empatia. Essa ausência de uma “teoria da mente” o tornava incapaz de interpretar o comportamento social dos outros, levando a uma falta de reciprocidade social.

Indivíduos com TEA muitas vezes se destacam em certas tarefas ou têm capacidades especiais. Julgo dispensável dizer o quanto Turing era um homem à frente de seu tempo em habilidades matemáticas, criptografia e ciência da computação. Arriscaria dizer, com alta probabilidade de acerto, que seu QI era superior à média. Em manuais diagnósticos considerados ultrapassados, seria provavelmente diagnosticado com Transtorno de Asperger – esta antiga categoria nosológica está incluída no atual diagnóstico de TEA.

Chama a atenção também uma cena em que organizava a comida durante o recreio escolar, separando as ervilhas, verdes, da cenoura, laranja. Pode ser apenas uma representação dos rituais que faziam parte da rotina de Alan Turing – mais um aspecto da vida destes seres humanos especiais.

O lado triste de toda esta incrível história é que Turing era homossexual em uma época em que era crime tal orientação na Grã-Bretanha. Foi julgado e condenado à castração química, devido a sua importante contribuição ao governo (consegue entender que castração química era uma pena considerada leve para o “crime” de ser homossexual? Eu também não).

Em 1954, aos 41 anos, morreu misteriosamente, tendo sido encontrado ao lado de seu corpo, em seu apartamento, uma maçã mordida. Turing havia se interessado por estudos que envolviam compostos químicos perigosos nos últimos anos de sua vida, como o cianeto. Foi, então, declarado morto por suicídio após ingestão de maçã contaminada com cianeto. Posteriormente, foi aventada a hipótese de intoxicação acidental pelo composto.

Acho todo este trágico fim no mínimo estranho e suspeito. Uma intoxicação acidental por alguém como Turing, extremamente metódico? Uma autointoxicação com uma maçã salpicada com cianeto apresentando uma única mordida e encontrada religiosamente ao lado de seu corpo desfalecido?!

Ficam os questionamentos e reflexões...

Curiosidade:
Desde a infância, a corrida era o esporte favorito do matemático. Turing chegou a participar das eliminatórias para representar seu país nas Olimpíadas em 1948. Seria mais um exemplo de um interesse excessivamente perseverativo e da obstinação em áreas específicas que acompanha a vida destas pessoas?




Autor: Leonardo March

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