O Lado Bom da Vida - Transtorno Afetivo Bipolar de Pat Solitano Jr.

Baseado em um livro homônimo de Matthew Quick, “O Lado Bom da Vida” (Silver Linings Playbook) retrata uma história surpreendente que aborda dificuldades da vida, transtornos mentais, laços sociais e familiares e, sobretudo, superação e amor.




Poster Divulgação: Adorocinema


Na trama, Pat Solitano Jr. (Bradley Cooper), diagnosticado com Transtorno Afetivo Bipolar (TAB), retorna à casa de seus pais após oito meses de internação em um sanatório por agredir severamente o homem que foi flagrado por ele tendo relação sexual com sua esposa.

Pat, contando apenas com o apoio de sua família e poucos amigos, é compelido a recomeçar do “zero”. Sem emprego, casa própria e esposa, torna-se obcecado pela ideia de reconquistar sua ex-companheira e acertar seu casamento. No entanto, em um golpe do destino, o protagonista conhece Tiffany Maxwell (Jeniffer Lawrence), que também apresenta problemas emocionais e relacionais e compartilha com Pat o desafio de retomar as rédeas da própria vida.

O desenrolar desta história, marcada pelo encontro intenso entre estes dois protagonistas, pode nos esclarecer e ensinar muitas coisas sobre transtornos mentais.

Inicialmente, é fundamental o entendimento do que caracteriza o Transtorno Afetivo Bipolar (TAB). Resumidamente, trata-se de um distúrbio psiquiátrico complexo, caracterizado pela alternância de episódios de depressão com os de mania ou hipomania. Há, no entanto, períodos assintomáticos entre os referidos episódios. Além disso, as crises podem variar de intensidade, frequência e duração.

Acredito que deva estar se perguntando o que é mania e hipomania...

O que isso tudo tem a ver com o filme?

Ao sair do sanatório, Pat recusa-se a tomar as medicações prescritas por seu médico. Mas, assim como Hipertensão Arterial Sistêmica (“pressão alta”), o TAB é crônico, para toda a vida, e o uso regular das medicações adequadas é necessário para diminuir a intensidade, frequência e duração de novos episódios do transtorno. Consequentemente, podemos observar o protagonista em um franco episódio de mania – período distinto de humor anormal e persistentemente elevado, expansivo ou irritável e aumento anormal e persistente da atividade ou da energia.

Para indivíduos como Pat, em fase maníaca, falta de disposição não é um problema – estão sempre a mil por hora! O filme nos mostra a rotina incansável do protagonista, preenchida por muitos exercícios físicos e madrugadas passadas em claro, lendo e procurando por vídeos de seu arruinado casamento.

Qualquer mínima frustração é o suficiente para o protagonista “explodir” e até partir para a violência física, inclusive contra seus pais. E aqui entra uma consideração importante: não se trata de um temperamento explosivo, “pavio curto” ou “mau caratismo”, mas sim de uma das possíveis alterações de humor deste quadro - o humor irritável.

Agora te proponho um exercício... Imagine-se em um estado de mania, com todas suas principais características. Quero dizer, imagine que sua energia e humor estejam transbordando! Será que você conseguiria manter a adequação social, o “filtro”, como bem dizemos no popular?

Esta retórica quase maldosa nos serve para nos colocarmos no lugar de Pat e entendermos sua inadequação social decorrente da síndrome maniforme (mania) – ele pergunta a outros sobre situações difíceis e delicadas, como a morte de entes queridos, sem hesitação.

Em certo momento, Pat conclui, com ajuda do acompanhamento médico e psicoterápico, que os remédios são indispensáveis para o controle do seu humor, retomando o tratamento medicamentoso.

No entanto, “O Lado Bom da Vida” não passaria de um filme comum e monótono se a medicação fosse a solução de todos os problemas. Pat encontra um sentido no amor, companheirismo e na dedicação e disciplina durante o treinamento para um concurso de dança.

Sua melhora e mudança de comportamento, nesta linda história de superação, servem de lição para refletirmos como cada pilar da vida de um sujeito com TAB precisa ser levado em consideração quando se trata de recuperação e prognóstico.

Nota 1: A riqueza deste filme é enorme e escrevi uma análise apenas focando no protagonista, porém Tiffany Maxwell (Jennifer Lawrence) e Pat Solitano (Robert De Niro) não são menos dignos de estudo.




Autor: Leonardo March

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